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Refletindo - Celular: caverna ou janela?

16 de Dezembro de 2020 | Por Gustavo Arruda | 4 minutos para ler

O celular tornou-se na última década um aparelho de ​importância quase vital a todos. Mas é claro, quem tem um celular o utiliza diariamente. Vamos lembrar das quase infinitas possibilidades de comunicação e informação desse aparelho: mandar ​msg pelo wpp​, checar o ​fb​, dar um ​google para responder algo, ler as notícias do dia, anotar algum recado, utilizar o ​app do banco, ou, quem sabe até, ligar para alguém.

Para tentarmos entender mais profundamente essa questão, vamos relembrar alguns ensinamentos de um clássico da Filosofia: ​Platão​. Tendo vivido entre os séculos V e IV a.C. em Atenas, seus escritos ecoam até hoje e ainda possuem força para nos guiar nas pesquisas e nos questionamentos atuais. Uma de suas mais famosas contribuições é a passagem do ​mito da caverna​, que podemos encontrar no livro VII, do diálogo ​A República ​- lembrando que Sócrates, mestre de Platão e personagem que aparece em suas obras, preferia comunicar sua Filosofia oralmente, através de diálogos. Que tal lermos o início do livro VII, em que Sócrates fala (e Platão escreve) sobre o mito da caverna? Aqui embaixo vai um pedacinho:

Sócrates - Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres [marionetes] armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. (PLATÃO, ​A República​, 514a-b)

Quadrinho da Turma da Mônica sobre o Mito da Caverna

Parte do quadrinho “As Sombras da Vida”, de Maurício de Sousa.

Platão (junto de outros tantos pensadores) nos permitiu, ao longo dos séculos, construir hipóteses cada vez mais precisas sobre nossas noções científicas e filosóficas. Nos cabe, agora, atualizar o legado desse clássico filósofo grego, levando em conta um dos maiores companheiros contemporâneos do ser humano, ​o celular​. Em que medida nossos celulares fazem parte do breu da caverna, ou, inversamente, parte do processo de saída dessa escuridão?

Por um lado​, não dá pra contestar que os celulares nos permitem ir além da nossa caverna habitual. Ora, é possível ter contato com culturas do mundo todo através desse aparelho, adquirir conhecimentos de todas as universidades do globo e, inclusive, ler livros de escritores de todas as épocas e locais. Igualmente, não dá pra contestar que livros são janelas para a realidade (e para além dela).

Por outro lado​, nem todos os livros já escritos são bons. Há, infelizmente, livros terríveis pela história da humanidade, que colocaram muitas pessoas de volta na caverna. E, da maneira similar, nos dias de hoje, é possível passar horas e horas do dia consumindo informação irrelevante através dos portais e aplicativos de nossos celulares.

Quando o dispositivo deixa de ser um mero auxiliar e torna-se uma condição para as tarefas diárias, é preciso tomar cuidado, pois começamos a nos assemelhar aos “prisioneiros” do mito da caverna. Dessa forma, é necessário desenvolver consciência da situação para retomar o controle sobre o objeto e passar a utilizá-lo de maneira ​emancipatória - livre, libertadora. Ainda há esperança de usar o celular para dar uns pulinhos fora da caverna.

É muito cedo para julgar de maneira definitiva nossos mais queridos aparelhos tecnológicos de bolso. Mesmo assim, devemos ficar atentos. A caverna de Platão é uma metáfora muito antiga, que pode nos ajudar a entender a influência e o impacto dos celulares em nossos hábitos. Não podemos esquecer que esses objetos estão espalhados por aí, em posse das pessoas que hoje vivem. Acredito que Platão ficaria contente com as possibilidades de divulgarmos conhecimento verdadeiro que atingimos no século XXI, contudo, de maneira cautelosa. Afinal, cabe a cada um de nós entender que a tal caverna é uma forma de entender sua própria vida e, da mesma maneira que escolhemos bons livros para ler, devemos buscar utilizar a tecnologia como janela - não como escuridão - em nossas vidas.

Gustavo Arruda

Licenciado em Filosofia pela Unicamp, trabalha como professor há anos e desenvolve pesquisa em Filosofia Política. Enquanto um ávido leitor de Platão, Kant e Aristóteles, trabalha com (e é apaixonado por) todos os formatos de livros.